Você também morre

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A juventude tem uma mania cretina de achar que é imortal. Nada do que é ruim acontece com a gente. A gente não vai escorregar subindo nessa árvore, nem vai se machucar pulando dessa pedra, nem vai ser pego dirigindo bêbado, nem vai engravidar dando umazinha sem camisinha. A gente está acima dessas coisas todas, só que não.

Conheci gente que teve certeza de que não ia morrer, mas errou. Tem jovem que morre feio, de jeitos piores do que morreriam normalmente, só por se sentirem invencíveis. Carro é uma beleza. Tenho um ou dois amigos que me fazem ter noção do que é o verdadeiro “medo da morte” só de me darem uma carona do centro até em casa. Os caras não têm limites!

Tenho uma amiga que me disse uma vez o seguinte: “não sou controlada e forte o suficiente para não transar com o cara só porque não tem camisinha. Se eu já estou lá, sem roupa, pirando e o cara diz que não tem, desculpa, mas vai ter que me comer mesmo assim”, e eu, sentado do outro lado da mesa ouvindo isso, devia estar fazendo a maior cara de indignação do mundo. Mas ela não, porque ela não pega nenhuma doença, nem mesmo uma coceirinha de leve, que dirá engravidar.

A juventude tem uma mania estranha de negar que tem medo. Quem tem medo, tem, mas mesmo assim, vai e faz. É como se o fato de se cagar todo só de pensar em uma coisa não fosse motivo suficiente para ficar longe dela. A gente GOSTA de correr riscos e não precisa nem fingir. O futuro é que mostra que está tudo errado, mas como a vida é agora, como o importante é o momento presente, essa coisa de futuro não surte efeito algum.

Tem gente que bebe até cair, só para acordar no outro dia e pensar: “acho que eu exagerei”, e voltar a tudo na noite seguinte. Tem gente que arruma briga como se o mundo fosse feito só de gente que bate de mão fechada, que luta mano a mano e que tem honra de aceitar derrota. A gente bate nos outros sem lembrar que qualquer dúzia de notinhas compram um revólver sem registro. A gente se esquece que tem gente que nasceu pra matar e mata pra ser feliz. A gente se esquece de tudo quando é jovem.

Tem essa mania idiota de achar que não vai morrer, mas vai. Eu tenho sorte de nunca ter perdido gente muito próxima, amigos que não poderiam ser substituídos, mas sei que vou perder. Sei disso porque às vezes, bem de vez enquando, eu também lembro que não sou imortal, que também posso ser pego, que também sangro, que também posso me foder, mas é raro. É tão raro que até o dia que algo acontecer comigo, vou continuar acreditando que sou imortal, assim como você.